Estudos mostram que, no estado do Ceará, a influenza sazonal ocorre em média 2 a 3 meses antes de surgir nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, que servem de base para o calendário nacional de vacinação. Este projeto testará se, ao focar suas campanhas nos meses de abril e maio, a política nacional de vacinação não estaria oferecendo uma proteção inadequada contra os efeitos prejudiciais da gripe na população materno-infantil da região norte e do semi-árido brasileiro.
Foi realizado o linkage das tabelas completas do SINASC e SINAN disponibilizadas para este estudo. Foram selecionados indivíduos com febre, encaminhados, acompanhados de tosse ou dor de garganta e início dos sintomas nos últimos 7 dias (síndrome gripal), utilizando o Sistema de Informações de Agravos de Notificação – Influenza (SINAN-Influenza), Ministérios da Saúde, Secretária de Vigilância em Saúde. Para informações sobre o programa de vacinação contra influenza nos últimos cinco anos foram utilizados dados do Programa Nacional de Imunização (PNI, DATASUS; pni.datasus.gov.br)
Modelos recentes indicam que a região semiárida do Ceará (população de 8,8 milhões) é o ponto de partida da transmissão sazonal de influenza no Brasil, onde estudos sugerem que o pico de atividade precede as campanhas de imunização. Neste estudo, foi confirmado um erro no cronograma de imunização no Ceará e identificado uma alta carga de influenza em gestantes e bebês pequenos. A morbidade atribuível a doença respiratória aguda grave (DRAG) e influenza de 2013 a 2018 foi classificada por idade, status de gravidez e subtipo de influenza. Utilizando o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC, Ministério da Saúde, Governo Federal, Brasília, DF), foram comparados os desfechos de crianças nascidas de mulheres com ou sem DRAG e rastreadas as flutuações sazonais no peso ao nascer e na gravidez. Nesse sentido, foram identificados um total de 3.297 casos de DRAG, dos quais 145 (4%) ocorreram em gestantes. A incidência máxima de DRAG e influenza coincidiu nas semanas epidemiológicas 15 a 20. Vale destacar que as campanhas de imunização ocorreram durante ou logo após o pico de atividade de influenza. Oscilações cíclicas no peso ao nascer e na idade gestacional coincidiram, com quedas acentuadas nas semanas epidemiológicas 50 a 10. 61 bebês nascidos de mães com DRAG durante a gravidez foram identificados. Esses 61 bebês pesavam 10% a menos ao nascer (2.879 ± 784 g vs. 3.196 ± 573 g; P = 0,019) em comparação com os controles (n = 122) e apresentaram maior probabilidade de prematuridade (RR 3,15; IC 95%: 1,52, 6,52). Esses resultados sugerem que a influenza afeta negativamente os desfechos de gravidez e parto no Ceará. A campanha de imunização antes do pico de atividade de influenza melhoraria substancialmente os desfechos no estado, com prováveis benefícios para a dinâmica de transmissão regional e nacionalmente.
A influenza no Ceará, localizado na região semiárida do Brasil, atinge seu pico de 2 a 3 meses antes do que nas regiões Sul e Sudeste. Notavelmente, as cepas de influenza encontradas em Fortaleza são mais relacionadas àquelas do Hemisfério Norte. Apesar dessas diferenças bem documentadas na epidemiologia, todo o país segue o mesmo cronograma de vacinação. Isso resulta em proteção inadequada para gestantes e seus fetos contra a influenza nas regiões tropicais e equatoriais do Brasil. Os padrões sazonais dos vírus influenza A/H1N1 e A/H3 (vírus sazonais) nessa área ressaltam a necessidade de repensar as estratégias nacionais para a campanha de imunização contra a influenza. Essa reavaliação é essencial para evitar a transmissão intergeracional da carga de doenças.
Esses resultados sugerem que a influenza afeta negativamente os desfechos de gravidez e parto no Ceará. A campanha de imunização antes do pico de atividade da influenza melhoraria substancialmente os desfechos no estado, com benefícios prováveis para a dinâmica de transmissão em nível regional e nacional.