Ciência de Dados

Novas recomendações de ganho de peso gestacional para o SUS (Sistema Único de Saúde)

Federal University of Rio de Janeiro

Apresentação do Projeto

  • O que é?

    As novas recomendações têm o objetivo de validar as normas do Consórcio Internacional de Crescimento Fetal e Neonatal para o século 21 (INTERGROWTH-21st) no que tange o ganho de peso gestacional (GPG), criando novas recomendações para gestantes no primeiro trimestre, com peso normal ou acima do peso. As recomendações de GPG atualmente utilizadas pelo SUS não foram adequadamente testadas ou validadas, portanto este projeto poderá melhorar os cuidados nutricionais e reduzir a manutenção, no pós-parto, do peso ganho durante a gestação.

  • Como foi o experimento?

    Este projeto foi dividido em sete etapas. Na primeira delas, foi realizada revisão sistemática em bases bibliográficas nacionais e internacionais para identificar estudos nacionais realizados a partir de 1990. Na segunda etapa, a limpeza dos dados do SISVAN e criação de algoritmo incluindo avaliação de valores implausíveis foi realizada. Em seguida, uma análise descritiva dos dados limpos das gestantes registradas no sistema foi realizada. Na quarta etapa, a concordância entre o peso pré-gestacional autorrelatado e o peso medido durante o primeiro trimestre de gestação foi avaliada. foi realizada. Para esta etapa, dados do CONMAI e do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) foram utilizados.  Na quinta etapa, curvas brasileiras de ganho de peso gestacional foram criadas. Para estas curvas, apenas mulheres sem doenças antes ou durante a gestação, que deram à luz crianças com peso adequado para idade gestacional, a termo, foram incluídas. Para avaliação da validade externa das curvas, dados do estudo “Nascer no Brasil” (2011-2012) foram utilizados. Uma oficina de trabalho para discussão do novo instrumento e uma consulta a profissionais e gestores da atenção básica também foi realizada. Na sexta etapa, as curvas nacionais foram comparadas a outras curvas internacionais criadas nos últimos anos. Além da comparação visual, a qualidade do ajuste de cada curva aos dados do “Nascer no Brasil” foi avaliada. Por fim, na sétima etapa, recomendações provisórias de GPG foram definidas, com base nos escores z e percentis das curvas, considerando a ocorrência de desfechos infantis adversos e utilizando o método das margens de não-inferioridade.

  • Principais Resultados

    Novas curvas de ganho de peso gestacional (GPG) para mulheres brasileiras foram desenvolvidas, focando exclusivamente em mulheres que não apresentavam doenças antes ou durante a gravidez e que tiveram neonatos a termo apropriados para a idade gestacional. Essas curvas refletem os padrões de GPG em mulheres aparentemente saudáveis, com resultados perinatais favoráveis. Um algoritmo também foi criado para limpar o banco de dados SISVAN para gestantes, o que envolveu análises de consistência, identificação de valores discrepantes e aprimoramento dos dados antes de definir como o GPG seria calculado nas curvas. Além disso, o estudo avaliou a concordância entre o peso pré-gestacional autorrelatado e o peso medido durante o primeiro trimestre de gravidez entre mulheres brasileiras. Também foi avaliado o impacto do uso de cada uma dessas estimativas na classificação do índice de massa corporal (IMC) pré-gestacional. Como o peso pré-gestacional autorrelatado é a medida mais comumente disponível durante o pré-natal, ele foi utilizado em nossas curvas. Os resultados indicam que o peso pré-gestacional autorrelatado pode ser utilizado de forma eficaz para calcular tanto o IMC quanto o GPG, quando as medidas de peso do início da gravidez não estão disponíveis.

  • Por que é inovador?

    A ideia é não convencional porque as recomendações de ganho de peso gestacional (GPG) atualmente utilizadas no SUS não foram devidamente testadas ou validadas. A política atual do Ministério da Saúde (MS) do Brasil é identificar mulheres em risco de GPG inadequado utilizando o gráfico proposto por Atalah et al. (Atalah et al., 1997, RMC) e determinar o GPG com base nas recomendações do Instituto de Medicina (IOM, 2009). No entanto, o gráfico de Atalah et al. tem baixa capacidade de prever resultados perinatais adversos associados ao GPG (Kac et al., 2009, IJOG) e classifica o ganho de peso excessivo como “adequado,” o que pode estar contribuindo para a epidemia de obesidade observada na população de gestantes brasileiras. Em contrapartida, as recomendações do IOM foram desenvolvidas para a população americana, onde os perfis de GPG são muito diferentes.

  • Qual é o problema que busca solucionar?

    O ganho de peso gestacional (GPG) é um aspecto significativo da gravidez, pois é um fator modificável intimamente associado a desfechos adversos maternos e neonatais. Consequentemente, os profissionais de saúde costumam monitorar o GPG. No entanto, as recomendações para GPG atualmente utilizadas no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro não foram adequadamente testadas ou validadas. Essas recomendações têm uma capacidade limitada de prever desfechos perinatais negativos relacionados ao GPG e classificam erroneamente o ganho de peso excessivo como ‘adequado’. Essa classificação incorreta pode estar contribuindo para a epidemia de obesidade na população brasileira

  • Implicações para o Sistema de Saúde Brasileiro

    Esta pesquisa é crucial para políticas públicas voltadas à melhoria da saúde materno-infantil. O projeto desenvolveu novas curvas para monitoramento do ganho de peso gestacional (GPG), baseadas em estudos nacionais, que foram incorporadas em 5 milhões de cadernetas de gestantes distribuídas em todo o Brasil. Essas curvas foram projetadas para refletir a realidade das mulheres brasileiras e auxiliarão tanto os profissionais de saúde quanto as gestantes no acompanhamento do estado nutricional durante a gravidez, potencialmente melhorando a nutrição materna e infantil a curto e longo prazo. Para apoiar os profissionais de saúde, ferramentas como uma calculadora offline em Excel e uma ferramenta gratuita de acompanhamento online, desenvolvida em R, permitem a classificação e o monitoramento das gestantes de acordo com as novas curvas. Além disso, um aplicativo para Android/iOS  foi criado para o acompanhamento do GPG, oferecendo recomendações e orientações com base no Guia Alimentar para a População Brasileira.

  • Próximos Passos

    Os próximos passos para este projeto incluem o seguinte:

    1. Estabelecer uma vinculação entre os dados do SISVAN, o Sistema Nacional de Nascimentos e o Sistema Nacional de Mortalidade. Isso ampliará nossa capacidade de avaliar a eficácia das curvas em prever diversos desfechos, incluindo a mortalidade infantil.
    2. Desenvolver recomendações para o ganho de peso gestacional (GPG) com base nos desfechos disponíveis e nos compromissos entre a saúde materna e infantil.
    3. Conduzir um painel Delphi composto por especialistas para recomendar uma nova política de GPG.
    4. Criar um aplicativo móvel com gráficos atualizados e orientações nutricionais.
    5. Desenvolver um painel interativo para os estados brasileiros, a fim de melhorar a qualidade dos relatórios públicos gerados a partir dos dados de cuidados pré-natais de rotina.
    6. Disseminar esses métodos para outros países e em diferentes fases da vida, como a adolescência.