Ciência de Dados

Utilizando Big Data com georreferenciamento para identificar relações causais entre doenças infecciosas e saúde infantil

Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Apresentação do Projeto

  • O que é?

    Se, por um lado, as doenças infecciosas podem ter impacto apenas transitório nas gestantes, por outro, elas podem trazer consequências definitivas às crianças. As intervenções públicas podem mitigar tais impactos? O projeto buscou identificar como a exposição a fatores de risco epidemiológico locais durante o período fetal poderia influenciar os desfechos de desenvolvimento das crianças em seus primeiros anos de vida. Também foi avaliado até que ponto o acesso a cuidados básicos de saúde e a programas sociais podem mitigar os efeitos negativos no desenvolvimento da criança.

  • Como foi o experimento?

    Foi realizada uma análise de dados abrangente de toda a população do Rio de Janeiro de 2000 a 2017, com foco em nascimentos registrados, óbitos e notificações de doenças infecciosas — especificamente dengue, sífilis e tuberculose. O objetivo foi examinar a exposição materna e seus efeitos nos desfechos de nascimento e na mortalidade infantil. Para isso, a equipe de pesquisa geocodificou os endereços das mães, vinculando-os a setores censitários e áreas de cobertura das unidades de saúde, permitindo a replicação dessas metodologias em âmbito nacional. Utilizando curvas de sobrevivência e modelos de regressão, o estudo revelou que a disseminação de infecções é influenciada por fatores locais, como condições entomológicas, densidade populacional e redes comunitárias. Além disso, uma revisão da literatura indicou evidências mistas sobre o impacto das infecções durante a gravidez nos bebês, destacando lacunas significativas na avaliação do papel da atenção primária nesta área.

  • Principais Resultados

    O projeto forneceu informações descritivas detalhadas sobre a incidência de doenças e os desfechos adversos, mapeando a cidade para cada doença, a proporção de mulheres infectadas durante o período gestacional e a taxa de mortalidade infantil (IMR) de 1 ano para nascimentos de mães infectadas. Observou-se uma grande heterogeneidade entre as doenças – tanto a incidência quanto a IMR condicionada à infecção variam entre as regiões, com indicadores de sífilis marcadamente mais altos em todos os casos.

    Essa descoberta sugere que a incidência de doenças entre mães e seus efeitos são altamente localizados dentro do território. Além disso, foram encontradas diferenças notáveis entre as taxas de infecção e a IMR condicionada à infecção para cada doença. Importante, os mapas que ilustram a IMR condicionada à infecção revelam que os efeitos adversos são frequentemente ainda mais localizados dentro da cidade e nem sempre coincidem com o mapa de incidência. Isso é particularmente evidente com a tuberculose, onde os impactos na IMR se concentram em áreas específicas.

    Adicionalmente, análises de regressão indicaram que infecções durante a gravidez geralmente resultam em consequências negativas para os desfechos de nascimento e a saúde infantil nos primeiros anos de vida. No entanto, esses efeitos adversos são específicos para combinações de doenças e desfechos e tendem a ser mais localizados dentro da cidade do que a própria incidência da doença. Os resultados sugerem que o papel da atenção primária à saúde em mitigar esses efeitos varia entre diferentes combinações de doença e desfecho, o que pode levar a efeitos de composição significativos, bem como a consequências não intencionais tanto positivas quanto negativas. Como um ponto positivo, há evidências sugestivas de que o início da infecção pode promover maior envolvimento das mães com os serviços de saúde, potencialmente aumentando a sobrevivência infantil nos anos seguintes ao nascimento (por exemplo, no caso da tuberculose). Por outro lado, também há evidências sugestivas de que o acesso à atenção primária está associado à redução da morte fetal, o que pode, eventualmente, levar a um aumento da mortalidade infantil após o nascimento (por exemplo, no caso da sífilis).

  • Qual é o problema que busca solucionar?

    As infecções são uma das principais causas de mortalidade e morbidade materna em todo o mundo, com o maior impacto estimado em países de baixa e média renda. Segundo estimativas globais recentes sobre a incidência de doenças, a sepse materna e outras infecções relacionadas à gravidez totalizaram cerca de 12 milhões de casos em 2017, o que corresponde a uma proporção de 1 caso para cada 11 nascidos vivos no mundo. No entanto, as infecções maternas podem deixar cicatrizes ainda mais profundas nos indicadores globais de saúde e no desenvolvimento de capital humano se também afetarem seus filhos. Apesar da vasta pesquisa clínica documentando se e como as infecções podem afetar a saúde materna e fetal, e os impactos potencialmente disruptivos que as infecções maternas podem ter na saúde infantil e no desenvolvimento humano a longo prazo, ainda há muito pouca evidência causal conectando diretamente a exposição a infecções no útero e a saúde infantil. O status de infecção de mulheres individualmente é frequentemente não observado e dificilmente está associado aos resultados das crianças após o nascimento. Isso é especialmente comum em países de baixa e média renda, onde as estatísticas vitais geralmente são escassas e as doenças infecciosas são generalizadas. Há ainda menos evidências sobre até que ponto o status socioeconômico e o acesso a cuidados de saúde, em especial aos serviços de atenção primária, podem mitigar impactos potencialmente prejudiciais.

  • Implicações para o Sistema de Saúde Brasileiro

    Os resultados do projeto são relevantes ao contribuir com inovação de produtos e para o refinamento de políticas públicas. Destacam-se três principais contribuições:1) Desenvolvimento de algoritmos de linkage e geo-referenciamento para os sistemas de informação do Datasus/MS (SIM, SINASC, SINAN), que foi disponibilizado publicamente e poderá ser replicado pela comunidade acadêmica.2) A partir da base de dados final, foi possível mapear de maneira extremamente refinada (i) a incidência de agravos infecciosos entre gestantes e (ii) desfechos para a saúde infantil (até 5 anos de vida), condicional à infecção materna. Os mapas estão disponíveis. Importante destacar que tanto incidência quando mortalidade condicional à incidência são bastante localizadas no território, o que permite intervenções focalizadas. 3) Por fim, foi disponibilizado um conjunto de resultados econométricos que permitem a identificação de combinações de agravos-desfechos para as quais os efeitos adversos são mais graves; e para as quais o acesso à atenção primária tem sido mais/menos protetivo.