A poluição do ar afeta as taxas de natimortos, de malformações congênitas e de mortalidade neonatal? O estudo tenta responder a esta pergunta cruzando os dados sobre saúde infantil coletados da coorte de 100 milhões de brasileiros do Cidacs, com dados de alta-resolução obtidos por satélite sobre poluição do ar. O objetivo é estabelecer os valores críticos para poluição do ar que preveniriam desfechos de nascimento adverso e malformações, devido à concentração de partículas finas, PM 2,5.
O trabalho foi dividido em três fases principais: na primeira delas, as duas bases de dados principais foram obtidas e fundidas através do uso de identificadores administrativos. Na segunda fase, relações espaciais foram usadas para predizer os níveis de exposição das mães e das crianças na coorte, levando também em consideração o período intrauterino de cada bebê. Na última fase, as associações entre poluição do ar e as variáveis de nascimento foram estimadas através do desenvolvimento de modelos de regressão logística multivariável.
Com base no conjunto de dados do SINASC e CIDACS do período de 2007-2016, foram avaliados cerca de 29 milhões de nascimentos nos 5570 municípios brasileiros. A partir da análise destes conjunto de dados a equipe do projeto demonstrou o aumento do risco para efeitos adversos de nascimento a partir da exposição à níveis de concentração de 5 PM 2.5, ou seja, verificou-se que nos dois bancos de dados, as correlações entre exposição e desfechos adversos de nascimento ocorre, de forma significativa, a partir da exposição em níveis inferiores ao recomendado pela OMS. O estudo também apresentou evidências de que as famílias mais vulneráveis, beneficiários do bolsa família, são mais susceptíveis aos efeitos nocivos da exposição aos poluentes ambientais, possivelmente por residirem em áreas periféricas, mais próximas de grandes rodovias ou de queimadas.
Dados de poluição atmosférica com alta qualidade (e alta resolução) não estavam disponíveis na maior parte dos locais, sendo normalmente coletados em um número reduzido de estações de monitoramento. Com poucos dados de poluição e/ou amostras relativamente pequenas, grupos de pesquisa têm, geralmente, encontrado problemas para encontrar poder estatístico suficiente para estimar estes efeitos com precisão.
Este trabalho inovou ao vincular os dados da Coorte de 100 milhões de brasileiros compilados pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (CIDACS) com os mais recentes dados espaciais de poluição do ar cobrindo todo o território brasileiro, o que garante um forte poder estatístico ao modelo utilizado.
Falta de evidências científicas de alta qualidade que comprovem a associações negativas entre exposições ambientais e problemas de saúde ao nascimento.
Os achados desse projeto podem guiar a adoção de medidas direcionadas a diminuição do impacto da poluição na saúde infantil.
Os próximos passos desse projeto incluem estimar os limites críticos de poluição do ar, a partir da construção de curvas de exposição-resposta para os desfechos de saúde infantil estudados (do nascimento até os 5 anos). Em um último passo, o projeto focará nas queimadas florestais como uma das ameaças mais salientes, não apenas para a biodiversidade global, mas também para a qualidade do ar local em muitas áreas do Brasil. A equipe do projeto irá identificaras maiores queimadas florestais no período amostral de 2000-2019 usando uma combinação de técnicas de análise de séries temporais e caso-cruzado para estimar os efeitos dessas queimadas na qualidade do ar local, bem como nos desfechos de saúde materna e infantil.